Com giz cor anis
Fiz dela flor de lis
Do risco a cicatriz
Bela é, sou feliz.
Sinceramente sincero
Com giz cor anis
Fiz dela flor de lis
Do risco a cicatriz
Bela é, sou feliz.
A sobrinha
Oi Tia
Que fazes?
- Uma poesia
Cale-se.
Tia é braba
Da ira a autora
É unha encravada
Se acha escritora
Podia ser bela
Se feia não fosse
Pra sereia e donzela
Falta um jeito doce
É toda salgada
Como sua linha
Reta e mal amada
Discreta cópia minha.
Há quem diga
Quando vi o mundo, moderno, fiquei mudo e escrevi o absurdo tentando ser leve como o branco da neve no inverno. Mas sou pedaço do céu pesado que despenca, ora pingo molhado, ora nevasca, ora tormenta, pingado a quem mora do lado de fora. Quem faz da calçada o colchão, de restos a carne salgada e de sua caminhada o pão.
Mas tais linhas não matam fome: consomem esperanças minhas sobre homem. Deixa eu corado na bochecha e aguado de garganta seca. Secura que impede o pedido pela cura da desigualdade e faz de minha vontade, um grito doído dizendo não ao colorido.
Quero todo mundo preto e branco, como tevê sem cores para não renegar outros bandos. Afinal, sem preto, preto não é branco e, no final, branco sem o preto é só prantos. No entanto, também negro. Negro como o lamento dum rubro que sangra, pulsa e repulsa o humano neste outubro folião. Descolorido sentimento do órgão a um palmo de meu pulmão.
Assim sério deitei
E sem nenhum riso
Mas sorrindo acordei
Ao sonhar seu sorriso.
Vida e tão belo
É doce o bom dia
E até no flagelo
És doce poesia.
(Uma homenagem aos 100 anos de Cartola)
O homem quis amar
Que some com o verde
E com o azul do mar
Que escurece de sede.
Toque de flor
Rosa amarela
Em terra e vaso
Flor de primavera
Sincera: é cravo
De dia cor-de-rosa
De noite perverso
Já foi uma prosa
Hoje é um verso
Rimado com espinho
Seco e não regado
Secado a sol sozinho
Só, nunca molhado
Mas cravo então
Beijado sente dor
Pois beijo é ilusão
Era só o beija-flor.
À noite disse claro
Lua: não me juras
Se claras dum lado
Dum outro és escura.