Arquivo para Outubro, 2008

 
Com giz cor anis

Fiz dela flor de lis
Do risco a cicatriz

Bela é, sou feliz.

A sobrinha 

 

Oi Tia
Que fazes?
- Uma poesia
Cale-se. 

 

Tia é braba
Da ira a autora
É unha encravada
Se acha escritora

 

Podia ser bela
Se feia não fosse
Pra sereia e donzela
Falta um jeito doce

 

É toda salgada
Como sua linha
Reta e mal amada
Discreta cópia minha.

Há quem diga

Quebrei meu paradigma quando disse: quero texto sobre rima. Há quem páre e diga: volte ao clima de seu contexto, faça rima. Mas no texto, não mais mexo. Então, remexi minha poesia e fiz do remexo um pretexto para expressar emoção e nostalgia.

Quando vi o mundo, moderno, fiquei mudo e escrevi o absurdo tentando ser leve como o branco da neve no inverno. Mas sou pedaço do céu pesado que despenca, ora pingo molhado, ora nevasca, ora tormenta, pingado a quem mora do lado de fora. Quem faz da calçada o colchão, de restos a carne salgada e de sua caminhada o pão.

Mas tais linhas não matam fome: consomem esperanças minhas sobre homem. Deixa eu corado na bochecha e aguado de garganta seca. Secura que impede o pedido pela cura da desigualdade e faz de minha vontade, um grito doído dizendo não ao colorido. 

Quero todo mundo preto e branco, como tevê sem cores para não renegar outros bandos. Afinal, sem preto, preto não é branco e, no final, branco sem o preto é só prantos. No entanto, também negro. Negro como o lamento dum rubro que sangra, pulsa e repulsa o humano neste outubro folião. Descolorido sentimento do órgão a um palmo de meu pulmão.

 

 

 

 

 

 


Assim sério deitei

E sem nenhum riso

Mas sorrindo acordei

Ao sonhar seu sorriso.

 

Vida e tão belo

É doce o bom dia

E até no flagelo

És doce poesia.

 

(Uma homenagem aos 100 anos de Cartola)

 

O homem quis amar

Que some com o verde

E com o azul do mar

Que escurece de sede.

Toque de flor

 

Rosa amarela
Em terra e vaso
Flor de primavera

Sincera: é cravo

 

De dia cor-de-rosa

De noite perverso

Já foi uma prosa

Hoje é um verso

 

Rimado com espinho

Seco e não regado

Secado a sol sozinho

Só, nunca molhado

 

Mas cravo então

Beijado sente dor

Pois beijo é ilusão
Era só o beija-flor.


À noite disse claro

Lua: não me juras
Se claras dum lado
Dum outro és escura.


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas.

Ora, por que poesia?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porques. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Para isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porques, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porque.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porques. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porque. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porque.

O auto-autor:

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

Para parar para pensar:

“Há tempos, desde que o fura-fila é tido como esperto, a palavra corrupção está distorcida.”

Que fiz eu?

E-mail:

tiago.ribeiros@terra.com.br