Arquivo para Setembro, 2008

Soturno

 

Um toc na calçada
À meia-luz do poste

São toques da pisada

Dum ex-cara de sorte

 

Que caras não vê

Porque é escuro
E tudo o que lê

É algo no muro

 

Em letra de menina

Que diz: fui embora
E ele diz: assassina
Meu eu ainda te namora

 

Sem seu telefone

O silêncio é castigo

 E o som do saxofone

É seu único amigo.


Assim não hiberno
Se o Sol me espera

Furtado do inverno

E dado à primavera.


Pétala de flor
Folhinha que cai
Escreve minha dor
Do amor que se vai.

Lennon

 

Um tom elétrico
Violão outro dom
Lennon frenético
Um Beatle som

Que hoje sonhei
Mas hoje descansa
E ontem chorei
Era lembrança 

De toda sua paz
Do tiro impulsivo
Que ainda me faz
Imaginar ele vivo.

Fome

Sem um jantar

Nada nem pão

Um velho está

Vivo mas então

 

Na casa ao lado
Um cara se queixa
Da carne no prato
Que
 na lata deixa

 

No fundo do lixo

Agora é comida

Antes era bicho
Hoje salva-vida

 

Do que procura

Encontra e come

A carne que cura
A secura da fome.

Entre a nuvem e o sol

 

Nuvem: sorria

Pare de pingar

Se chove de dia

A noite irá chorar

 

Porque brilha

Atrás de você

Um sol que trilha

Um caminho pra te ver

 

Entre o trovão

Que você lança

E longe do chão

Só ele Sol te amansa

 

Com sua alegria

O deixa nublado

O céu que neste dia

Os deixa apaixonados.

Maldita

 

Havia uma flor

Doce e bem rosa

Mas o beija-flor

Hoje mal toca

 

 Porque na mesa

Maquiada a pó

De cor violeta
Está você a só

 

Onde a cirurgia

Para sua cura

É minha poesia

Maldita e escura

 

A você amada

Com todo sabor

És bela deitada

Morta meu amor.

Passarinho

 

No céu azul
Longe do ninho
Passarinho ao sul

Voa sozinho

 

E só é lindo

Pássaro livre

Que ao infinito

Voa, canta e vive

 

Antes de um som

Que canta uma dor
Pelo cano marrom

De um caçador.


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas.

Ora, por que poesia?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porques. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Para isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porques, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porque.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porques. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porque. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porque.

O auto-autor:

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

Para parar para pensar:

“Há tempos, desde que o fura-fila é tido como esperto, a palavra corrupção está distorcida.”

Que fiz eu?

E-mail:

tiago.ribeiros@terra.com.br