Arquivo para Agosto, 2008

A última folha do inverno

 

Num estalo

O vento continua

Na folha de um galho

Onde nem a Lua

 

Num dia frio

Nunca aparece

Em vez do sol vazio

Que talvez aquece

 

Um rosto gelado

Que diz não chore

Da árvore embaixo

Que flor não flore

 

Enquanto o frio vai

Dizer sim eterno
À folha que sim cai

Acabou o inverno.

 Desinspiro

 

Triste e alegre

Desinspirado talvez

Impoético repete

Era uma vez

 

Um quarto sem tom

Vazio sem cores

Onde poeta e dom

Sentem suas dores

 

No traço cinza

Da única ponta

Do lápis que em cima

Da folha desconta

 

Uma forçada rima

Sem sequer inspiro

Que do poeta fica

Um amargo suspiro.

 

O anjo da garoa

 

E a nuvem pára

Escurece com frieza

Antes de cor clara

Agora de cor preta

 

Fábrica do granizo

Que fere na garoa

O anjo que no piso

Caminha e não voa

 

Entre a tempestade

Onde a asa descansa

Despedaçada pela saudade

De um pingo de esperança

 

No fim do desafeto

Enquanto a água cruza

E se guarda pelo teto

De um só guarda-chuva.

Profundo

 

Desceu com cuidado

Na fuga de uma dor

Sobre um piso gelado

Sob um céu agora sem cor

 

Onde sem saída

Sequer uma estrela

Rejeita dizer uma rima

Que só diga tristeza

 

Lá do alto horizonte

Para que tente escutar

Da estrela de tão longe

Uma gota lacrimejar

 

Pingada ao moço

E iluminada pelo furo

Na fresta desse poço

Onde o fundo é mais escuro.

 

Embaixo

 

Quando parou de girar

A Terra ficou vazia

Parou o sol de raiar

Que noutro lado brilha

 

Mas deve ser em cima

Que o seu jeitinho criança

Aí do alto me ilumina

Aqui embaixo: lembrança

 

De te ver como gosto

E me pergunto cadê

Porque vivo não posso

Estar no céu com você.

 

 

Quem sabe se

 

Olhas assim
Mas quem sabe se
Olhas pra mim
Ou nunca me vê

 

Desde o início
Quando olhei a vista
E agora como vício
Sua vista também imita

 

Depois de muito tarde
Agora que muito cego
Meu olho sempre arde
No preto que enxergo

 

E minha pálpebra fria
Só não olha porque
Quem sabe um dia
Escreva para você.

 

 


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São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas.

Ora, por que poesia?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porques. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Para isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porques, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porque.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porques. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porque. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porque.

O auto-autor:

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

Para parar para pensar:

“Há tempos, desde que o fura-fila é tido como esperto, a palavra corrupção está distorcida.”

Que fiz eu?

E-mail:

tiago.ribeiros@terra.com.br