Arquivo para Julho, 2008

Clara noite

 

O dia é bem claro

Mas à noite escurece

Quando Clara apaga

Seu olho e adormece


Mesmo bem negra

Clara é bem branca

E Clara quando chega

Como a lua me encanta

 

Ao olhar para

Esse sol da meia-noite

Enquanto a luz de Clara

Cega minha noite.

 

 

Faz de conta

O meu pesadelo

Foi ter sonhado

Que é verdadeiro

Na Terra um naufrágio

 

Sobre o terreno selvagem

De dinheiro-interesses

Na urbana lavagem

De cabeças-prazeres

 

Que se salvam também

Mas só quem puder

Viver simples e bem

Com leveza de mulher

 

No lugar do homem

Que o mundo esvai
Enquanto o realismo vem

E meu faz de conta se vai.

 

20 de julho

 

O minuto passa

Na hora que não

O relógio atrasa

O tic do som

 

Despertando sim

Até quem não deitou

Acordando assim ruim

Pelo sono que não tirou

 

E o céu amarelo seria
Se o sol fosse azul

Suas cores trocariam

Por sua amizade blue

 

Deixando quem dormiria

Quietinho sem barulho

Mas como qualquer dia

Chegou 20 de julho.

 

 

Café

 

À noite eu sairia

Sozinhamente nu

Sem a companhia

De meu café jus

 

Se bem há tempo

Acabasse o que bebo

Que esperança sentimento

E me embriaga pelo medo

 

Do insonífero sabor

Negro e líquido

E da mesma cor

De meu pavor íntimo

 

Noturno diariamente

Bebido com sono e razão

E na minha boca sempre

Amargo como a solidão.

 

Ao Dylan

 

O som do poeta

Zunia sentimentos

Menino dito profeta

De paixões e tormentos

 

Herdou gaita e violão

Do pai blues escuro

De Beatles o barulho

E um frágil coração

 

Ferido com ternura

Por Suze ou Baez

Buscando sua cura

Nas letras que fez

 

Simples e sopradas

Ao tudo e ao nada

Cantando dentro de mim

Blowin’ in the wind.

 

O jardim da rosa negra

 

O jardim é a rua

De uma rosa perfumada

Que procura uma criatura

Que procura ser amada

 

Jardim da rosa negra

Branca ao desabrochar

Na noite faz sua teia

Ao inseto que a pagar

 

Por uma vaidade só

De sentir um só beijo

E que voltará ao pó

Ao atender um só desejo

 

Cinco horas e o sol

Aparece detrás da cortina

Acorda até seu homem-girassol

Que no amor da rosa ainda acredita.

 


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas.

Ora, por que poesia?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porques. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Para isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porques, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porque.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porques. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porque. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porque.

O auto-autor:

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

Para parar para pensar:

“Há tempos, desde que o fura-fila é tido como esperto, a palavra corrupção está distorcida.”

Que fiz eu?

E-mail:

tiago.ribeiros@terra.com.br