Arquivo para Junho, 2008

Click

 

Amizade ao click

Na tela e de vidro

Depois do convite

Do outro lado cristalino

 

Que conecta e seduz

Pelo fio interligado

E na velocidade da luz

Os faz amigados

 

Mas os separa inteiros

Mesmo não distantes

De sorrisos verdadeiros

Agora a um click de instante

 

Como uma bolinha amarela

Sorrindo para que acredite

Que é carinha sincera

Quando é só mais um click.  

 

O tempo de uma noite

 

Quando dorme não se vê

O tempo que dura uma noite

Lento e negro para esconder

Quem não dorme por dores

 

Como as de quem procura

Dizer como dizer quem ama

Ou quem espera pela cura

Do ente parente sobre a cama

 

Sonolento mas acordado

O olho vê a noite escura

Vê também o tempo parado

E uma gota que segura

 

Após a noite a manhã se faz

O sol intenso começa a raiar

Mas nem o calor do raio é capaz

Das lágrimas da noite secar.

 

Simples

 

Pouca palavra

Escassa mas escrita

Letra não falada

Sentida

 

É simplismo

Escrito à natureza

Agora mero lido

Leve como leveza

 

Para que perceba

O humano desumano

O verde que se queima

E que seca o oceano

 

Que por água insiste

Ao beber a rima

De minha dorzinha triste

Simplesmente sentida.

 

Insulto à violência

 

Os prédios assistem o injusto

Esperando pelo regime policial

Chutes, suplícios e o insulto

Até o caçador pegar o lobo mau

 

Mas é ao descer do sereno

Que o ruído do motor anuncia

A luz vermelha que traz sossego

No momento da ordem tardia

 

Ordem fardada que vigia e pune

Insulta a força com a mesma arma

Extermina a doença que nos une

E armada jamais se desarma

 

À violência uma flor por piedade

Mas que murcha e não resiste

Sedenta por água e bondade

E pela paz que inexiste.

 

Os sons do silêncio

 

Da bela Elis boas lembranças

De sua simples casa no campo

Músicas como jardins de infância

 E a simplicidade do seu blues de 20 anos

 

Do maluco beleza a saudade

Que pedia S.O.S antes da morte

Ajudado por sua liberdade

A morrer por escolha de sorte

 

E Cazuza por Ney namorado

 O alcoólico, amado e doente

Aos pés da droga e do som exagerado

Como Tim ainda de tudo descrente

 

E Renato no céu deve chorar

Há tempos em incêndio

Ouvindo pais e filhos brigar

E todos os sons que dormem em silêncio.

 

O mercenário

 

Em casa o sino do relógio acusa

Que o sono dele nunca demora

E no trabalho com atenção escuta

O mesmo sino para ir embora

 

Mas o dinheiro o hipnotiza

Compra o seu carro e amigo

Dá a ele o que não precisa

E até sexo se for preciso

 

Constrói um castelo de notas verdes

Imenso como sua ganância e solidão

Mais intenso que sua sede

 De ganhar moedas por escravidão

 

Mas é e sempre foi imundo

Mercenário que sempre é e era

Pensando poder ficar com tudo
Quando estiver embaixo da terra. 

 

Molecagem

 

É moleque bem arteiro

Ri do outro antes que outro dele ria

Brinca com o dedo no formigueiro

Apelidando outros de noite e de dia

 

Mas com a gordinha não se brinca

De cabelo curto é invocada

A magrela é que fica mais brava

Quando se chama vara de empinar pipa

 

A baixinha é pior

Espoleta e olhar irritado

Usa saltinho vinte para ficar maior

Para ficar na altura do namorado

 

Perde depois até o único amiguinho

Acabou toda a sacanagem

Ainda sim rindo sozinho

Faz sim molecagem.

 


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas.

Ora, por que poesia?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porques. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Para isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porques, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porque.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porques. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porque. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porque.

O auto-autor:

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

Para parar para pensar:

“Há tempos, desde que o fura-fila é tido como esperto, a palavra corrupção está distorcida.”

Que fiz eu?

E-mail:

tiago.ribeiros@terra.com.br