Arquivo para Maio, 2008

 Em chamas

 

Gentes à beira da calçada

Na cidade de luzes cegantes

Enquanto elas gritam por socorro

Esnobo com meu andar elegante

 

Em chamas me sinto por não ajudar

Espero o outro fazer o que penso

O outro espera alguém a mão dar

Enquanto gentes suportam sofrimento

 

Mas a chuva do céu sempre corre

Lágrimas que matam a sede do povo

A água à gente em chamas socorre

Mas arde em mim como o fogo

 

Queima toda a impotência

De ajudar um entre milhões

Queima toda a consciência

De sofrerem por sociais exclusões.

 

À 

Não conhece sequer o seu cheiro
Sabe que existe mas nunca sentiu
Soluça e se tranca no banheiro
Lendo a carta cuja reposta nunca existiu 

Imagina ela a perfeita perfeição
Enquanto ele é imperfeito e infinito
Que a vê bela e com uma ponta de paixão
Lê as cartas sem respostas que tem escrito 

Desenha com o lápis o que pensa
Mas pára e escreve o que sente
Rabisca linhas e as compensa
Com mais outra carta inocente

Crendo na resposta e com felicidade
Lembra do que não sabe e persiste
À desconhecida uma carta de amizade
Apenas para saber se ela existe.

 

O medo de nascer

Bebi do seu leite para ser o rei
Enquanto me guardou dentro de si e chorava
Nasci para sonhar com o deus que matei
Mas sonhei com o medo que ao meu lado gritava 

Sistema nervoso em distorção
Em elevações de gritos animais
Ouço vozes na luz da escuridão
Em convulsões e outros medos parciais 

Terror sexual ao escurecer da cortina
E o batom nos lábios da senhora menina
Foi só a marca do sangue e do amor
Enquanto temia nascer depois desta dor 

Agora, minha fé doente quero vomitar
Como flor seca e sem água padecer
Diga-me onde posso a vida encontrar
Mas não me faça de novo nascer.

 

O entusiasta

Canta músicas até sem sentido
A voz é do grande entusiasta
Que é livre e não tem destino
Mas que sabe cada rua por onde passa

Caminha ao som da paz que dele soa
Assoviando a mais simples das felicidades
Olha a um pássaro quando voa
Para se sentir leve e amar a liberdade

O ar do ódio desconhece seu pulmão
Desconfiança os olhos não percebem
Sente bondade até ao toque das mãos
E boas palavras de bocas que nunca se repetem

Enquanto não dorme para viver
Sonha estar sonhando sinceramente
Sorrindo ao sol que vê nascer
É entusiasta para sempre.

 

Da tragédia ao espetáculo

No trabalho o e-mail diverte
É o aéreo e vermelho acidente na tela colorida
Pessoas à volta lamentam mas repetem
Outro e-mail de pessoas sem mais vida 

A tragédia virou o passatempo
Agora que tudo parece em descontrole
Tudo parece um espetáculo de momento
Muito mais quando em tevê à cores

Quando ela engorda o alienado
O entretém e o faz respirar
O controla por um meio remoto
Que o sintoniza sobre o que desejar 

Sentado é só um espectador 
Ora se sente o Big Brother de 84
Assiste a tragédia e da pipoca sente o sabor
Quando um show de horror é o espetáculo.

 

Que se quebre meu coração

 

Anestesiado por remédios paliativos

De mãos dadas à solidão

Com lamentos em cantos alternativos

Que se quebre meu coração

 

Antes de voar tão alto quanto o céu

Todas as simples palavras busquei

Ao rosto que se escondia atrás do véu

Depois de esconder a humana que desejei

 

Doente e melancólico

Desperto do profundo sono sem ação

Em tom de poema alcoólico

Que se quebre então meu coração

 

E ninguém me beijará no pesadelo

Sonho de louco de juras e desejo

Com mísera ou nenhuma paixão
Destrua e quebre em pedaços meu coração.

Conceito

 

O vê manchado e sob falta de compaixão

Sob palavras de um dito pecado por ter existido

Mas a cor dele que enxerga não é pela sujeira

É a beira da diferença ao ter nascido

 

Logo o conceito se trabalha

Do bandido, do malcheiroso e do perverso

Que só procura uma vala onde caiba

Que procura um espaço onde caiba no universo

 

Mas o mundo de tão grande é pequeno

É de todos os senhores de sorte boa

É gigante demais pro preconceito

E pequeno de menos pro que escreve e se magoa

 

Agora, feliz dele por ter espírito gay
Ama o negro, o pobre e o animal

Procura estar além do mal e do bem

E ir contra toda forma de padrão social.

 

 Por todas elas

 

Enquanto o canto da rua protege a criança

A fome faz companhia ao lado

O carro que passa dá esperança

Com o resto do dinheiro desperdiçado

 

Mesmo assim o homem diz sentir amor

Mesmo quando mata e faz chorar

Assiste e suplica por menos dor

Soletrando uma canção de tiros que faça ninar

 

Ela dorme e soluça

Não entende, mas sabe

Reconhece de quem é a culpa

Mas se cala aceitando a mentira como verdade

 

Brinca em um parque de imaginação

Convive com guerra e estupro

Procura alguma mãe que dê atenção

E encontra na silenciosa morte, o mais calmo mundo.

 


Curta!

São dez palavras, secas, escritas. Se dizem caladas, digo egoístas.

Ora, por que poesia?

Muitos de nós vivemos em busca de alguns significados, porques. Explicações para o que sentimos, desejamos, ou até porque as vezes sorrimos e choramos. Para isso, textos científicos e autoajudas, cheios de porques, são escritos para nos confortar e fazer parecer que, para tudo, existe para tudo um porque.
Diante desses complexos, a poesia é mais simples. Ela não tem significados, porques. Ela é como o amor que sentimos e não sabemos explicar porque, simplesmente, não há um porque. A poesia é apenas sentimento passageiro, um desenho irresponsável com as palavras que sai da cabeça, corre pelo papel e alí fica. Alí fica sem sabermos porque.

O auto-autor:

Tiago Ribeiro é estudante de jornalismo e vive sob a liberdade da música. Não acredita no dinheiro como fonte de felicidade e em pessoas que não o olhe nos olhos – acredita nas crianças. Dorme pouco para viver mais, e acorda cedo para ver o sol.

Para parar para pensar:

“Há tempos, desde que o fura-fila é tido como esperto, a palavra corrupção está distorcida.”

Que fiz eu?

E-mail:

tiago.ribeiros@terra.com.br